segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

Carregando a História sobre os Ombros

"Sinto as gotas quentes escorrerem pelas minhas têmporas, se arrastarem pelo meu rosto, e pingarem na madeira podreque se estende por muitos metros sob meus pés, formando a rampa íngreme por onde passo todos os dias. O sol escaldante cria gotículas que deixam minha nuca empapada de suor, e o peso sobre meus ombros me comprime para baixo, e não me deixa esquecer, nunca, de que é preciso seguir em frente. E acima."

O texto acima foi escrito pelo meu tataravô. Um imigrante italiano, que veio para o Brasil a procura de novas oportunidades. Mas o peso das sacas de café caiu sobre ele, e o prendeu aqui, em Santos, estabelecendo o destino de todos nós, descendentes. Toda minha família trabalhou no porto. Meu pai foi estivador, assim como meu avô foi estivador. Assim como seu pai e o pai de seu pai foram estivadores. Está no sangue, e nós, filhos e filhos dos filhos, carregamos no ombro esse fardo. Ou carregávamos, até um tempo atrás. Agora, quem ergue a maioria do peso são as máquinas.




Máquinas não se cansam. Máquinas não reclamam. Máquinas n~çao reivindicam seus direitos, pois máquinas não têm direitos. Além disso, elas carregam 40 mil sacas de café por dia. Antigamente, para subir a bordo essa quantidade se levava uma semana.

Nós, estivadores, lutamos, criamos sindicatos, e até uma federação. A federação nacional dos estivadores. Na teoria, conquistamos muitas coisas com o pagamento de salários em feriados civis e religiosos e a garantia de equipamentos de proteção para o trabalho. Mas na prática, ainda vejo vários colegas soferndo acidentes diariamente na estiva. E ainda lutamos por outros direitos, como repouso semanal remunerado e uma aposentadoria especial. Mas que de adiantou? Milhares de nós foram demitidos para dar lugar às máquinas.

A cada ano vejo metade dos meus colegas de trabalho sendo colocados na rua sem mais nem menos. O sindicato luta para garantir uma remuneração para todos que perdem seus empregos, mas são pouquíssimos desses meus colegas que conseguem algum dinheiro. A maioria continua vagando por aí, à procura de outro emprego arriscado.

Eu espero pacientemente minha vez porque sei que ela chegará. Não importa se você possui uma história no porto, eles simplesmente te descartam. Esse é o preço que nós pagamos para o país não ficar para trás na corrida do mercado internacional. E enquanto espero, faço meu trabalho. Isto é, quando tenho trabalho. É que na estiva, um dia você está empregado e no outro não. Disputamos como animais, para sermos escolhidos. Entre dezenas, poucos são chamados e se você não tem sorte, espera horas ou até dias para tentar novamente.

Nós somos colocados em uma situação sem saída. Ou fazemos trabalho exaustivo e perigoso e organizamos greves. E se organizarmos greves, ficamos sem trabalhar e sem o nosso dinheiro. Dificilmente conseguimos algum resultado, hoje. Além disso, cada vez que nós nos revoltamos perdemos pontos em relação às máquinas... É um trabalho injusto.

Nós que carregamos durante décadas a história do desenvolvimento do país nos nossos ombros, estamos sendo despejados aos poucos. Nosso trabalho, antes tão valorizado, está sendo esquecido. Se antes sofríamos mais com as cargas, pelo menos éramos importantes. A mecanização do porto nos trouxe uma desgraça pela qual nãop esperávamos. Transformou todas as nossas conquistas em atos em vão. Hoje lutamos para preservar nossa classe de trabalhadores em extinção. O tempo corrói os cascos dos navios e as máquinas que injustamente substituem nosso trabalho. Mas a memória do antigo porto de Santos ainda brilha na história dos estivadores da cidade.

Julia Ribeiro

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Santos, ali fomos nós!

O histórico da viagem para Santos encontra-se, em parte, no blogados!9ano.

Clique, e refaça o percurso.

Fotos da viagem, pelos alunos (é preciso ter perfil no orkut para visualizar)
Artigo de opinião - Proposta de trabalho, por Cami, Laura e Marina - 04.out.09
A porta da verdade estava aberta - Sensibilização, por Cami, Laura e Marina - 12.ago.09
A verdade dividida - Poema, Carlos Drummond de Andrade - 12.ago.09
Elaborando um post - por Cami, 17.jun.09
Santos, aí vamos nós! - por Cami, 08.abr.09

Que portas vocês abriram?

Cada nome é uma maçaneta... Clique!

Bianca Schaeffer - Minha vida, meu espaço
Caio Pantarotto - Desculpas
Carol Kalili - Verde e cinza. Podemos ter os dois.
Fernanda Carvalho - Vida Madastra
Fernanda Nahas - Um olhar para o horizonte
Fernando Alassal - Possíveis futuros
Gabriela Barbara - "Nada é fácil"
Gabriela Blasbalg - "Malditas rodovias"
Guilherme Feltre - Diário do Porto - Absurdos no porto de Santos
Ian Michaelis - Influências inglesas
Isabel Ramos - Ontem, hoje
Julia La Colla - A técnica do caiçara
Julia Nogueira - Homem urbano em Santos
Julia Ribeiro - Carregando a história sobre os ombros
Julia Zimmermann - Os invisíveis
Luiza Barbosa - Mulheres da vida
Mahya Baldacci - Difícil vida fácil
Marcela Piza - Minha Santos, Minha História
Maria Elisa - Toda generalização é perigosa
Mariana Carvalho - Retrato em branco e preto
Mariana Trevisan - Paranapiacaba pela visão inglesa
Marina Fernandes - Aos pescadores da Baixada
Marina Silva - O estivador hoje em dia
Maurício Ponzoni - Economia fora dos trilhos
Michelle P. Kaloussieh - Difícil Vida Fácil
Nicolau namo Spitale - Estudo Temporal do Meio
Pedro Bobduki - Eu, um caiçara observador
Rafael Galvão - Condições de trabalho no porto de Santos
Renato Savastano - Poluição!
Rodrigo Zobaran - Minhas impressões sobre 3000 anos atrás

Verde e cinza. Podemos ter os dois

Acho que nós, africanos, precisávamos um pouco da quantidade de transporte que encontrei em Santos, Paranapiacaba e Cubatão. Estes lugares, precisavam de um pouco mais do nosso pensamento em relação à poluição, vegetação e desmatamento. Para nós, boas são nossas matas, as nossas áreas verdes e nossos animais e o ruim: a falta de transportes. E acho que nas cidades por onde passei ocorre o contrário, o ruim é o desprezo ao verde, os não há tanta vegetação e nem tantos animais, mas percebi que para transporte há uma variedade, é muito grande.

Acho que nós africanos, podemos ter uma renda baixa (não todos óbvio), mas temos orgulho de nossa terra e eu, por exemplo, sou feliz lá. Eu duvido que os brasileiros tenham orgulho de mata, de vegetação, de animais, pois se tivessem não destruiriam tanto. Acho que eles têm bastante orgulho das máquinas, indústrias, porque se não tivessem, não haveria uma cidade como Cubatão. Reservada para fabricas e essas coisas que poluem tanto. Não acho que isso é o certo, porque muitos amigos meus que possuem uma dificuldade financeira, são felizes e jamais acabariam com uma arvore sequer, para construir uma indústria ou ferrovias.



Obvio que em certas partes, é preciso, mas não concordo com o exagero da destruição de áreas verdes, quando planejei minha viagem para o Brasil, logo imaginei um paraíso. Fiquei meio decepcionada com o que achei. Claro, também encontrei algumas áreas de preservação, mas me surpreendi com a crueldade do passado. Destruir matas para construir tantas indústrias ou vias para os meios de transporte. Sei que construir uma ferrovia, por exemplo, vale a pena, pois interliga cidades e favorece o deslocamento, mas a que custo!


Acho que o essencial é saber usufruir do que temos, não concordo com o exagero do desmatamento, e fiquei aliviada quando me informaram sobre a preservação de lugares que possuem parte do que restou de mata atlântica no Brasil. Fiquei também feliz em saber que existe pelo menos um parque que cuida dessa mata. Achei muito interessante e imagei se todos os lugares por onde passei fossem como aquela parte de mata que vi, seria maravilhoso. Até me mudaria para este lugar.
Ao mesmo tempo pensei na construção de tantas indústrias, que prejudicam tanto o meio ambiente. Óbvio que são muito importantes para o desenvolvimento econômico, mas houve certo exagero, principalmente em Cubatão. Nunca tinha visto tantas fábricas juntas, se morasse lá, respirando aquele ar, viveria menos anos do que vou viver.


O exagero não pode acontecer, principalmente quando se diz respeito ao meio ambiente. Posso dizer que sou o verde, e as cidades visitadas são cinzas. Teríamos que nos misturar para ter o ideal. Não acho que precisamos escolher entre um ou outro, apenas pensar em ter da melhor forma os dois.

Carolina Kalili


O estivador de hoje em dia

Sou estivador há mais de 40 anos nesta maravilhosa cidade chamada Santos. Morei aqui toda minha vida e comecei como estivador com apenas 15 anos, apenas ajudando com as mercadorias mais leves, sem carregar muito peso, e com o tempo minhas mercadorias foram crescendo cada vez mais.


Muitas pessoas olham meu trabalho como se ele fosse muito fácil a ser feito, elas dizem: ‘ ah! É só carregar sacos para cima e para baixo’. Tá, não posso negar, é apenas carregar sacos para cima e para baixo, mas para isso exige conhecimento da maquinaria de carga, de mecânica física, e domínio das técnicas apropriadas para o transporte e acomodação de cargas, além de conhecimentos sobre transporte, seguro de matérias perigosas e esforço, e se não fosse por nós, estivadores, a mercadoria não chegaria até os navios, então não é apenas carregar caixas para cima e para baixo, você não acha?


Mesmo hoje em dia tendo mais maquinas para nos ajudar, nosso trabalho é considerado perigoso, insalubre e estressante. E por haver mais máquinas nesse meio, nosso trabalho está caindo cada vez mais, e também diminuindo o número de estivadores, ainda mais com a minha faixa etária. Quando comecei a trabalhar no porto de santos ele era um lugar com muitos estivadores de todas as idades, e havia muitas prostitutas trabalhando no local, já hoje em dia não há muitas prostitutas, não há muitas pessoas trabalhando e a maioria dos trabalhadores vão de 18 a mais ou menos, uns 60 anos, não mais que isso. O porto sempre foi um lugar, na minha opinião, sujo, mas com o tempo acabei me acostumando.

Foi um pouco difícil para eu mexer nas máquinas, mas como preciso do dinheiro para sustentar minha mulher e meus três filhos, consegui aprender rapidinho. O salário pago não é dos melhores, mas da para dar uma ajudinha nas despesas da casa, e como faço isso ha muito tempo não há porque trocar de profissão.

http://amazoniaporumsulista.files.wordpress.com/2007/04/dsc04434_princesalaura_estivador.jpg

Essa troca de trabalhadores por máquinas pode ser muito bom para que as empresas transportem suas mercadorias mais rapidamente, mas isso faz com que muitas pessoas, como eu, percam seus empregos, e no futuro pode ser que não haja mais estivadores trabalhando nos portos.

Historia do porto de Santos:

Estivadores trabalhando:


Toda generalização é perigosa


Existe essa lenda urbana ou fama de que os americanos são burros, ignorantes, patriotas por demais, que não sabem nada sobre o mundo e tudo o mais...Não somos assim!

Não se pode negar o patriotismo americano, as grandes festas de “4th of July” ...

Mas o maior problema é a falta de informação.


Americanos podem escolher quais matérias vão cursar na escola e ganham bolsas de estudos nas Universidades por serem bons em esportes. E muitos de nós terminamos os estudos no colégio sem nem quase saber ler, ou interpretar textos... O conteúdo de história ensinado na escola é quase ou senão 100% americano. Achamos que somos o centro do universo e não sabemos localizar a maioria dos países no mapa – nem sequer nosso próprio.

Um grande exemplo é a imagem que muitos americanos têm do Brasil, esse país tropical, abençoado por Deus. Um lugar cheio de índios, andando pelados, com macacos de estimação e sem nenhum indício de civilização. Os mais informados? Bem, pensam que a capital do Brasil é a Argentina, ou melhor um pouco, Buenos Aires.

Mas também devemos admitir que brasileiros adoram falar mal de americanos... São burros, ignorantes, se acham o centro do mundo e todo aquele “blábláblá” de sempre. Mas vocês brasileiros, o que é que têm?

Grande parte da população brasileira não tem a chance de receber uma educação apropriada, de saber das coisas, de aprender, de ter cultura... E, às vezes, os privilegiados são os que acham que não têm de saber nada, ou fazer nada, porque os pais vão estar sempre lá para salvar.

Será que a população brasileira sabe que o Porto de Santos é o maior e mais importante da América Latina? Ou que a cidade de Cubatão recebeu o título de “Cidade Mais Poluída do Mundo” e depois se mostrou um exemplo ao ganhar o título da ONU de "Cidade Símbolo da Recuperação Ambiental"? Ou quem sabe, que Paranapiacaba abriga uma das mais antigas ferrovias do Brasil? Pode apostar que muitos não sabem nem que raios é Paranapiacaba!

Um país tão bonito, com tanto potencial... Mas também tanto preconceito. Às vezes fica a impressão que o próprio povo brasileiro não acredita no país que tem. “Ah, não tem mais salvação mesmo”, “Já foi feito o estrago, não tem nada que ajude mais”... A esperança é a última que morre minha gente!

Brasileiro adora falar mal de americano, mas e agora Brasil? O que você sabe sobre si mesmo? É...

Toda generalização é perigosa.

“Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...”

E viva Cazuza!

Maria Elisa

Condições de trabalho no Porto de Santos

Sou um estivador e trabalho no Porto de Santos desde jovem e sempre estive vivendo nesse local, pois meu pai era um estivador e minha mãe uma garçonete de bar.
Eles deram muito duro para me criar e sou muito grato, mas mesmo assim não posso levar uma vida fácil. Hoje com meus 18 anos, maior de idade e vacinado irei correr atrás das minhas idéias e dos meus direitos, como trabalhador, pois não sou escravo e acho que não devo correr os riscos que corro pela miséria que ganho no Porto de Santos.
Meu trabalho não é mais tão requisitado quanto era na época do meu pai. Por causa da industrialização, a mão de obra humana foi ficando desnecessária e com o maquinário moderno são necessários apenas um ou dois operadores, por isso a mão de obra foi sendo reduzida ao mínimo.
Para nós estivadores isso foi péssimo, pois o nosso ganha pão, que já era pequeno e suado, ficou ainda mais difícil de ser conquistado.
Além disso a segurança em nosso trabalho é medíocre.
Nesse dia eu estava trabalhando, e justamente o rapaz que sofreu o acidente era meu colega de trabalho e ele não estava lá porque gostava, e sim por necessidade, pois se não estivesse lá, poderia estar furtando ou roubando ou até quem sabe matando.
Ele era uma pessoa de família, que só queria o melhor, e era honesto, às vezes, o preço da honestidade é muito caro, pode custar até a vida, como foi o caso dele.
Poderia ser qualquer um no lugar dele, até eu.
Vocês podem imaginar uma pessoa trabalhando 18 horas por dia, para ganhar uma miséria e um dia você morre no trabalho, esmagado, debaixo de um container, deixando uma família para trás, que dependia de você para o seu sustento. Como eles sobreviverão? Pois acredito que o Porto não indenizará a família, para eles, ele era só mais um coitado, que não faz a menor diferença, pois de onde ele veio, terão outros vários trabalhadores para substituí-lo, pelo mesmo salário ou ate por um salário menor. Ninguém sabe que são eles que vão acorda cedo para ir trabalhar e movimentar a economia do país.
Ainda tenho esperança suficiente para achar que um dia isso pode melhorar, que vamos conseguir juntar um dinheiro, mas, na verdade, sempre ganhei pouco e até fiquei devendo no final do mês. Quando consigo grana ,como sou honesto, uso para pagar o que devo, e de novo fico liso.
Tudo isso ainda é pouco, pois provavelmente vou morrer aos 30 e poucos anos de alguma doença desconhecida que circula pelo Porto, eu nem sei como me prevenir dela.
Geração após geração ganhou dinheiro com nosso suor. Enquanto eles investiam na bolsa de café, nos o levávamos de um local ao outro nas costas. Como um pobre estivador, como eu, e que segundo as pessoas não tem conhecimento algum, pode fazer para um Porto ou mundo melhor?
Não sei direito, mas o que posso vou fazer é continuar lutando pela minha causa e de outros que comigo vivem e sofrem.

Rafael Galvão

Ontem, hoje

Naquela época, meados do século XX, a pequena cidade de Santos crescia. Isso graças ao enorme consumo de café, e ao porto. Apesar de nunca terem dado o devido valor, eu e todos os outros estivadores, fizemos com que tudo pudesse acontecer, afinal, se os sacos de café não chegassem até os navios, nada seria possível.

Eu e minha família vivíamos em uma pequena vila, com outros estivadores e funcionários do porto. Quando conheci minha mulher e decidimos nos casar, eu não tinha trabalho. Seu pai nunca daria a permissão e, portanto, precisaria de um emprego. Foi quando descobri que alguns amigos estavam indo pra Santos, cidade próxima a minha, trabalhar como estivadores. Fui.

Carregar todos os dias dezenas de quilos nas costas era exaustivo, corríamos risco de ter alguma doença devido à falta de higiene e da enorme quantidade de bichos. Também já perdi muitos companheiros pela falta de segurança, mas, apesar de tudo, ser estivador era meu ganha-pão, e foi como consegui construir minha família. O salário não era bom, ainda mais com todas as injustiças que sofríamos, mas eu e todos os meus colegas tínhamos orgulho da nossa profissão.

Hoje, quase 100 anos depois, vejo a cidade de Santos. Aquele tempo de trabalho braçal e cintas para impedir que os órgãos se danificassem com o peso, são passado. Um passado nem tão distante. Afinal, recentes mesmo são as máquinas. A pequena vila onde morava, agora foi cercada por prédios, hotéis, lojas... E o verde, aquele verde da praia, da floresta, não e mais o mesmo. O porto então, está com cada vez mais navios chegando e partindo, cada vez maiores e com mais mercadorias. Aquelas gigantescas máquinas cortando as leves marolas do mar de Santos, que fazem a cidade crescer, não somente no sentido literal.

Isabel Ramos

“Nada é fácil”

Santos, 30 de julho de 1901.

Vivi boa parte de minha vida a beira mar, descarregando e carregando mercadorias de navios. Morava em um galpão sujo e cheio de ratos no tumultuado porto de Santos. Passava o dia inteiro trabalhando e morrendo de fome, pois éramos alimentados com restos de comida de casa ou restaurante. O nome desta difícil profissão era estivador.



As pessoas que freqüentavam o porto eram normalmente homens, portanto quando aparecia uma mulher todos ficavam olhando. As mulheres transitavam pelo porto eram prostitutas, que levavam essa vida muitas vezes para se auto sustentar. Elas mantinham relações com trabalhadores. Amigos meus já mantiveram relações com esse tipo de mulher, mas eu não, pois, tenho três filhos e sempre lutei para conquistar meu salário para sustentá-los. Não podia gastar o dinheiro da alimentação de minha família para satisfazer meu prazer com uma prostituta.

Nunca tive nada fácil, sempre conquistei o que quis com muito esforço e dedicação. Por isso não me queixo da vida que tive, trabalhei, trabalhei, mas consegui uma coisa que para mim é o que mais vale, uma vida digna.



Hoje estou aqui, deitado em uma cama de hospital público prestes a morrer. Tive uma vida longa, estou com quarenta anos, três filhos, dez netos e uma mulher. Não me arrependo de nada que fiz, ensinei minha família que não se tem nada de mão beijada, todos são trabalhadores e admiradores de minha força de vontade de fazer o melhor.

João Silva da Cunha, estivador.


Gabriella Barbara

Homem urbano em Santos

Morei minha vida toda na cidade de São Paulo. Cresci nas melhores casas, freqüentei as melhores escolas. Férias? Só se for em grandes cidades como Roma, Nova York, Bali e Tóquio.
Nas últimas semanas fui arrastado por minha mulher para irmos a Santos e a vila de Parapiacaba. Fazer o que lá, pensei. Antes, para mim Santos não passava da praia para gente sem classe, enquanto eu prefiro as da Itália. Foi nessa viagem que percebi como Santos é fundamental tanto para o país todo, como para o mundo. Primeiramente pela questão toda de preservação ambiental. A região de Santos é um dos poucos lugares onde ainda há Mata Atlântica, original ainda. Plantas deixam qualquer cidade mais bonita, qual cidade européia não está cheia de parques e árvores?


Todos os arredores da cidade também são bem preservados. Cubatão é um exemplo de reconstrução ambiental, já que pelo que aprendi sofreu enormes impactos ambientais nas décadas de 70 e 80. Ainda por cima com uma enorme cidade como São Paulo por perto, é super necessário um lugar com muita vegetação para absorver todo o gás carbônico.


Mas não é só de mato que vive Santos. Nunca parei para pensar de onde vinham todos os meus sapatos e carros importados. Quer dizer, de onde vinham eu sei. A incógnita era como chegavam até o shopping Iguatemi.

Agora que me dei conta disso. O Porto de Santos é a porta de entrada para o Brasil. É por lá que chega a grande maioria dos produtos importados pelo Brasil, navios turísticos e fretados, e por onde saí toda a soja da empresa da qual sou vice-presidente. Caminhões com containeres chegando a todo o momento. A colocação deles no navio chega a ser até hilária. Pesando cerca de 20 toneladas, são levantados pelo guindaste assim como meu filhinho levanta um lego. Por onde ocorreria toda essa transição não fosse o porto?



É por isso tudo que descobri que Santos é muito mais do que eu tinha em mente antes dessa fantástica viagem. Tanto sua importância histórica como sua enorme importância atual. Pretendo voltar lá quando o calor voltar. Pois é, acho que a França pode esperar um pouco.

Julia Nogueira

Diário do Porto - Absurdos do Porto de Santos

Uma das cenas que não suporto desde que trabalho no porto, foi a de Carlão, um amigão meu assassinado pelas mãos da falta de segurança no local de trabalho.

"SANTOS - O estivador Carlos Silveira, de 57 anos, morreu na madrugada desta segunda-feira, 14, em um acidente no Terminal Marítimo Privativo de Cubatão, o porto da siderúrgica Cosipa. O estivador trabalhava no embarque de placas de aço quando uma chapa de aproximadamente 3 toneladas caiu sobre ele.

De acordo com o Sindicato dos Estivadores de Santos, o embarque era feito de forma irregular, com a empilhadeira atuando em cima da mercadoria. "A chapa escorregou e caiu em cima do trabalhador, o motorista levantou a chapa com a máquina e o trabalhador ainda estava vivo, com falta de ar. O resgate demorou 20 minutos para chegar"."

Sempre achei um absurdo da falta de segurança do meu local de trabalho.Depois que as coisas acontecem eles querem: " Queremos que o DRT tome providências. Já cansamos de marcar reuniões com a Cosipa para falar de segurança”

Só depois que os desastres acontecem, as pessoas descobrem que tem algo errado, porque elas não planejam direito, fazem do jeito mais barato para obterem lucro.Vocês não acham?

Pois nós que somos os trabalhadores de extrema importância que organizam as cargas para embarque e desembarque nos navios e nos portos, que geram lucro para o pais.

Hoje em dia, grande parte desta atividade está automatizada. Mesmo assim, acho o trabalho perigoso, insalubre e estressante já que as condições de trabalho são ruins, causando acidentes como houve com o meu amigo Carlão.

Nossos superiores sempre dizem que as coisas estão boas, e só dizem isso porque não estão no nosso lugar,vocês

Por isso nos trabalhadores do porto e de qualquer lugar temos que tomar atitude em relação as condições de trabalho.Nos merecemos reconhecimento e importância,e não e só porque somos muitos e recebemos pouco que somos menos importantes.

Acho que tudo deve ser melhorado no porto dês de equipamentos a assistência médica.

Espero que mais nenhum acidente aconteça de novo.

Guilherme Feltre

Eu, um caiçara observador

Fomos a Santos, visitar a cidade, e elaboramos algumas atividades sobre ela, entre elas: subimos no Monte Serrat e ficamos observando a paisagem. Pudemos tirar várias fotos imaginárias, como por exemplo, a cidade litorânea, com poucos prédios em relação a uma cidade urbana e várias montanhas cobertas pela Mata Atlântica.
É muito triste, para nós caiçaras, vermos a nossa cidade quase se conurbando com outras, pois a imagem que nós temos sobre ela é de uma cidade onde só nós temos o nosso mar, a nossa praia, o nosso território. Já com as cidades juntas, elas possibilitam a ideia de que essas cidades se transformaram em apenas uma, e aquele nosso território, nosso mar, nossa praia não é mais somente nossa, e sim, de várias outras pessoas.
Outro aspecto ruim que eu pude observar lá de cima do mirante é que, há muitos anos atrás, não havia tanta interferência do homem no meio ambiente e, para nós podermos viver no litoral, tivemos, obviamente, que destruir muita mata, o que eu acho uma pena. Mas, pensando bem, um pensamento muito individual, se não tivessem desmatado para que a urbanização crescesse, eu não estaria vivendo nessa cidade que eu vivo desde minha nascença, até hoje, e eu agradeço a Deus por me criar nessa terra, chamada Santos.
Construindo uma conclusão para todo esse raciocínio, eu sei que é errado desmatar um elemento da natureza, mas como e aonde nós iríamos morar sem que haja uma agreção a natureza? Eu acho que nós poderíamos preservar mais as coisas naturais, reconstruirmos o que nós já destruímos e cada pessoa poderia pensar mais antes de agir em qualquer situação referente à natureza!

Pedro Bonduki

Difícil Vida Fácil

Quando se fala da minha profissão logo se liga à idéia de vida fácil, sem esforços, com dinheiro caindo do céu. Posso garantir a todos que querem saber que vida de prostituta não é nada fácil. E quem nos chama de mulher da vida, também está muitíssimo enganado. Mulher da vida? De que vida? Talvez uma vida em que tive que me esconder por muito tempo de minha família, amigos, conhecidos, para manter em segredo o “dinheiro fácil”. Uma vida, que se passou na cidade das trocas comerciais, minha vida inteira de Mulher da vida, aconteceu em Santos.

Por cinco longos anos da minha vida tenho me prostituído na cidade em que, na década de 80, tinha a maior incidência de AIDS, e hoje está em 9º nessa mesma lista. Nesses cincos anos, fui submetida a coisas que não desejo a nem sequer uma pessoa na face da terra, experiências que jamais vou esquecer. Muitas vezes, sinto nojo de mim mesma e me vejo como papel higiênico: sou usada, e depois jogada fora.
A vida de uma prostituta não é nada tranquila: temos que enfrentar a concorrência, e as brigas entre nós prostitutas não são nada raras.Mas, quando o assunto é a legalização de nossa profissão, estamos todas juntas para lutar por isso. Quando estamos na rua, e passa um carro de policia, temos que fugir, e quando nos perguntam qual a nossa profissão, não podemos simplesmente falar, como os advogados, os comerciantes, ou os professores fazem, pois a nossa profissão é ilegal.
No meio dessa minha jornada, me envolvi com drogas, e com elas estou envolvida até hoje. Tenho que aceitar fazer programas com preços mais baixos e muitas vezes sem preservativo, para poder sustentar meu vício. Tenho medo de que eu esteja com alguma doença sexualmente transmissível, mas como minha profissão não tem direito a nada, como não tenho direitos de uma trabalhadora, não posso tirar isso a limpo.
Meu ponto é na região portuária. Lá meus clientes são variados: estivadores, marinheiros estrangeiros – filipinos, japoneses, chineses – muitos deles são fixos há um bom tempo, e por um deles, sou completamente apaixonada. Tenho certeza que é ele quem vai me tirar dessa vida, e me levar pra morar com ele. Mas também vivo à mercê de clientes bêbados, drogados, violentos, agressivos, e desses clientes, ouço coisas que nenhuma mulher no mundo gostaria de ouvir de um homem. Mas não posso denunciá-los e nem fazer nada contra eles, pois o meu trabalho é ilegal.

Este é um dos meus clientes fixos, aquele por quem eu estou apaixonada.
Entrei nessa vida por vários motivos, e a prostituição era minha última opção, mas foi o que eu tive que escolher. Minha família e eu estávamos passando por muitas necessidades, eu estava à procura de um emprego há bastante tempo, e não tenho estudo. Foi aí que uma velha amiga me apresentou a opção da prostituição. No começo neguei, e disse que não faria isso por nada nessa vida, mas não houve opção, tive que entrar na profissão, e me adaptar a tudo.

Tudo que eu e a maioria das prostitutas queremos, é uma profissão digna, e a prostituição não é, pelo menos de acordo com a igreja católica, que eu frequentava, e não frequento mais, pelo fato de que lá, eles não aceitam a profissão. A legalização de nossa profissão não vai incentivar as mulheres a serem prostitutas. Isso nunca vai acontecer. Nós só queremos os nossos direitos, os direitos que qualquer ser humano, qualquer trabalhador deve ter, e que com a prostituta não deveria ser diferente, pois é a nossa profissão, e não diversão, como muitos pensam por aí.

Michelle P. Kaloussieh

Um olhar para o horizonte

Século XXI.

http://www.sindmar.org.br/fotos/1686porto%20de%20santos%201.jpg

Porto de Santos. Um olhar distante no horizonte azul. Os pensamentos voam. A África ficou distante. As areias brancas, a vegetação... a família.

Movimentação no porto. Navios que atracam, navios que partem. Guindastes vêm e vão carregando enormes caixas de mercadorias. Contêineres recheados de produtos que embarcam e desembarcam para destinos variados. Passageiros de diferentes nacionalidades, vindos de um cruzeiro, deixam o navio. Misturam-se a estivadores, marinheiros, prostitutas.

Um guindaste que cai. Barulho ensurdecedor. E o silêncio. Todos param. Seus olhos abandonam o horizonte e voltam-se para o cais. No meio da multidão um rosto negro, olhar triste chama sua atenção. Nesse momento lembranças dolorosas vêm à sua mente.

Séculos atrás num continente não tão distante de terras brasileiras um povo vivia livre, correndo na areia branca, caçando para sua sobrevivência, dormindo na praia olhando para as estrelas no céu. Chega o homem branco, poderoso, armado, querendo braços para trabalhar na lavoura. É a escravidão que se inicia.

Mancha negra na história do Brasil, a escravidão tratou o negro como mercadoria. Transportado em navios, acorrentado, faminto, chicoteado, marcado a ferro e fogo sobre a nádega ou sobre o peito com as iniciais de seu proprietário, trabalhando sem receber nada em troca, era vendido como objeto, como se um ser humano tivesse o poder e o direito de se apoderar de outro ser humano. Separação da família, dor, sofrimento, tentativas de fuga, castigos físicos, doenças,

Em pleno século XXI, com tantos avanços no campo da tecnologia e da ciência, que trazem ao homem conforto e perspectiva de vida mais longa, o negro continua marginalizado e injustiçado. No trabalho dificilmente ocupa cargos altos, ganha menos do que o branco e na busca de emprego é deixado de lado quando há disputa entre ele e um branco.

A injustiça contra o negro ainda é maior na educação. São poucos os que conseguem chegar ao fim do ensino fundamental e o número de analfabetos é grande. Consequentemente, encontrar um trabalho que dê ao negro melhores condições de vida, torna-se difícil.

Em 1988, a nova Constituição brasileira passou a considerar o racismo como um crime inafiançável, mas ele continua a ser praticado em todo país. São comuns as denúncias que aparecem na imprensa. Atualmente há muitos movimentos que têm o objetivo de lutar contra o preconceito e a marginalização do negro.

13 de maio de 1898. Fim da escravidão. Mas não o fim do preconceito e da marginalização do negro. Um dia a injustiça social, assim como a escravidão, acabará. Seu olhar distante, sonhador, volta-se para o azul do horizonte.

Fernanda Nahas

"Malditas rodovias!"

Uma história de 77 anos de felicidade e desilusão; de mudanças bruscas e caminhos cruzados; de grande amizade e muito preconceito. Essa é a minha jornada. Chamo-me Manoel Carneiro da Rosa aliás, porém, sou mais conhecido como seu Tide lá na terra onde nasci, um lugarzinho localizado no município de Santo André, chamado Paranapiacaba. Sou homem negro, forte, músico, meio marceneiro, meio pedreiro, meio encanador, meio eletricista, meio mecânico, marido, pai e avô.Isso mesmo, meio marceneiro, meio pedreiro, meio encanador, meio eletricista, meio mecânico... hoje em dia faço de tudo. Tudo e mais um pouco para sustentar minha família.
Isso já foi diferente... ah... lembro-me como se fosse ontem: grandes rodas impulsionadas por extensas alavancas percorriam um caminho delineado por trilhos de ferro. Esses arcos sustentavam um conjunto de vagões, que por sua vez era movimentados por uma locomotiva localizada na parte frontal de toda a composição. Esse foi o ambiente de trabalho pelo qual dediquei 35 anos de minha vida... cuidava do manejo de máquinas ferroviárias... Bons tempos aqueles!

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O salário em espécie de um maquinista não era lá essas coisas. Ganhava o equivalente a 850 reais por mês, trabalhando dia e noite, de segunda a sábado. Todo esse esforço valia a pena. Bastava olhar ao redor e ver aquela natureza... a Mata Atlântica parecia um oceano e minha casa, um barquinho, completamente perdido no infinito.

Londres, Paria, Nova York... cidades globais, todas com sistemas ferroviários magníficos. Pessoas se deslocam com maior facilidade, menos gastos, assim como mercadorias. Esse simples fato pode gerar centenas de conseqüências muitíssimo favoráveis para nós, para o meio-ambiente e, é claro, para o nosso bolso.

O Brasil também já teve uma malha ferroviária... sinto-me orgulhoso de ter trabalhado nela – enquanto durou – mas, preferiu trocá-la por rodovias... milhares de rodovias.

Até hoje me pergunto o por quê dessa mudança tão absurda... nós tínhamos toso um sistema ferroviário (São Paulo Railway) baseado nas máquinas inglesas. As melhores do mundo!

Malditas Rodovias...!

As rodovias são, na minha opinião, uma das maiores causas de desmatamento da Mata Atlântica. Hoje em dia, furam até as montanhas para aqueles carros e caminhões insuportáveis passarem. Centenas de carros, centenas de caminhões... será que vão descobrir um jeito de colocar mais poluentes à solta por aí?

Com a ferrovia tudo era diferente... um trem médio transportava o equivalente a 13 caminhões por viagem, além de muitas, MUITAS pessoas.

Hoje em dia, seja a cidadão da capital ou do interior ele é obrigado a ter um carro. Faz parte do nosso dia a dia ir de lá pra cá e daqui pra lá individualmente. Antes de sair de casa até calculamos o tempo que levaremos no trânsito... um dia desses, espero estar vivo para ver, a cidade vai parar... se vai... talvez só assim as pessoas comecem a refletir... talvez...

Tem gente, o governo brasileiro inclusive, que pensa diferente de mim: pensa que a rodovia emprega mais pessoas, os caminhoneiros. Respeito a opinião, ela tem fundamento, porém, no meu caso e no caso de 90% dos habitantes de Paranapiacaba as rodovias apenas trouxeram miséria... a simples e verdadeira miséria. Miséria não só pelo dinheiro... já éramos pobres como maquinistas... miséria por destruírem nossas casas, nossa mata, nossa ar, nosso país.

Malditas Rodovias, deviam ser todas destruídas... pena que só árvores e alguns animais pensam como eu... não creio que tenhamos vantagens.

Hora de encarar a realidade... amanhã pego um ônibus para São Paulo. Nas mãos e nas malas nada. Como bagagem apenas os sonhos.

Gabriela Blasbalg

Desculpas

Santos é uma das maiores cidades brasileiras, conhecida internacionalmente, seja pela sua história, pelo seu Porto, pelas suas praias, pelos seus curiosos e charmosos prédios tortos ou por qualquer outro motivo, mas não estou aqui para falar sobre qualquer um desses, e sim de outro lugar: o Ecopátio, que me fez refletir como nós, membros de uma sociedade Capitalista, temos a capacidade e, ainda mais, a coragem de destruir aquilo que não nos interessa (em certa parte). Sou um empresário de alto cargo da cidade de São Paulo de uma empresa multinacional exportadora de diversos produtos para todo o mundo, cujo nome não posso revelar aqui por questões de contrato, mas posso dizer que suas mercadorias passam pelo enorme Porto Santista. Nesse mês fui convidado a visitar a Baixada, coisa que grande parte dos Paulistanos nunca fizeram, pois hoje visitamos todo o mundo e não mais o nosso próprio país. Fiquei entusiasmadíssimo, é muito bom conhecer um pouco mais do funcionamento da região onde você vive, ainda mais quando ela fica a pouco menos de uma hora e meio de sua casa. Foi uma viagem tranquila, preferi descer pela Anchieta pela beleza e não pela rapidez da Imigrantes, afinal essa é uma viagem para se apreciar a paisagem. Fui chamado para verificar como iam as coisas em um lugar cujo nome era Ecopátio. Nunca tinha nem ouvido falar. Segui meu GPS e me defrontei com um lugar imenso. Entrei no mar de concreto e logo um funcionário perguntou meu nome, disse que esperava por mim e me levou para um escritório fechado. Começamos a conversar e perguntei o que era aquilo tudo. Ele me explicou dos problemas que existiam antes, com os caminhões, que paravam a cidade devido às esperas pelos navios, mas que agora, com a construção do lugar, estes caminhoneiros esperam pela liberação do porto, diminuindo os tempos de espera, além da melhora na infra-estrutura. Percebi que essa obra era a grande responsável pelo aumento de exportações nos últimos meses e assim, o aumento do lucro na empresa. Quase por instinto, perguntei: “E antes, o que tinha aqui?”. O homem olhou pros lados, pro chão, e, de cabeça baixa, respondeu: “ah, era a mata né”. Foi como um soco. Todos aqueles 443 mil m² eram daquela belíssima Mata Atlântica. E agora, o que fazer se estava tudo destruído? Não restava nem se quer uma só plantinha solitária naquele mar de concreto. Por que então o nome ECOpátio? Parei para refletir. Primeiramente: o porquê da sua construção? O desejo do Homem, no qual me incluo, pelo Lucro levou a construção desse. Se não fôssemos nós, nada disso existiria. Se não fosse nosso desejo por mais Capital, não seria necessária a construção de um “estacionamento” de caminhões, pois existiriam menos desses veículos, afinal esse pátio deu um “sinal” verde para as empresas como a minha: “os veículos vão ser mais ágeis? Então podemos enviar mais deles”. Lamentável, mas a verdade. Mas então penso: E a nossa cidade? Quanto fora destruído para dar lugar a prédios e mais prédios? Aquele Pátio era apenas uma praia se comparado ao Oceano de concreto da Capital Paulista. Tudo para dar lugar a mais montes de cimento cinza sobre aquele verde encantador. O que uma viagem não nos faz refletir... Além disso, não sabemos se novas espécies existiam ali ou em qualquer outro lugar antes do homem vir e destruir tudo. Afinal, pesquisadores dizem que conhecemos apenas 2% das espécies do planeta, então é possível dizer que já tenhamos colocado seres em extinção antes mesmo de termos conhecido, porém não saberemos. Outra coisa poderia ter ocorrido, na década de 50, quando o mundo estava na crise pós guerra: o investimento brasileiro em mais ferrovias, afinal elas são mais eficientes: um cavalo de potência ferroviário transporta mais do que 3 vezes em relação a um caminhão, o que resultaria em menor emissão de gás carbônico e menor desmatamento. Mas é claro que os interesses econômicos foram muito maiores, pois o mundo estava em crise, e a construção de rodovias iria trazer montadoras para o país e movimentar a economia. Porém foi uma decisão que levou em conta apenas o momento do cenário mundial, e não o futuro, assim como já ocorreu aqui com a não construção de uma malha de metrô satisfatória há algumas décadas, que resulta no trânsito de hoje. Tudo bem. O Ecopátio é muito útil e com certeza está ajudando muito, mas será que valeu a pena? Será que valeu trocar um Patrimônio Natural daquele tamanho pelas vantagens que ele nos trouxe? Vantagens que serão convertidas em lucro? Será que não seria melhor investir em ferrovias que poluem e custam menos? Perguntas sem respostas. Concluindo, a construção do Ecopátio devastou uma grande área de Mata Atlântica devido o ambicioso desejo do Homem Capitalista em obter mais lucro, destruindo um terreno inexplorado, que poderia ter novos espécimes de seres vivos. Problemas que poderiam ser evitados com o investimento em ferrovias. Eu sei que parece irônico ler um texto de uma pessoa como eu, um Capitalista tão assumido, que teve tanta influência na construção do Pátio, na expansão da cidade, etc., mas tente perceber minha reflexão, e faça a sua também. Aquela visita me transformou, e hoje sou um dos responsáveis pelo projeto de conscientização. Estamos plantando mudas para tentar recriar um lugar que nunca mais será o mesmo. Um projeto que está no começo, mas que serve como tentativa de desculpas de um homem Capitalista que passou a refletir sobre seus atos à inofensiva Natureza.



Caio Pantarotto

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