segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

Carregando a História sobre os Ombros

"Sinto as gotas quentes escorrerem pelas minhas têmporas, se arrastarem pelo meu rosto, e pingarem na madeira podreque se estende por muitos metros sob meus pés, formando a rampa íngreme por onde passo todos os dias. O sol escaldante cria gotículas que deixam minha nuca empapada de suor, e o peso sobre meus ombros me comprime para baixo, e não me deixa esquecer, nunca, de que é preciso seguir em frente. E acima."

O texto acima foi escrito pelo meu tataravô. Um imigrante italiano, que veio para o Brasil a procura de novas oportunidades. Mas o peso das sacas de café caiu sobre ele, e o prendeu aqui, em Santos, estabelecendo o destino de todos nós, descendentes. Toda minha família trabalhou no porto. Meu pai foi estivador, assim como meu avô foi estivador. Assim como seu pai e o pai de seu pai foram estivadores. Está no sangue, e nós, filhos e filhos dos filhos, carregamos no ombro esse fardo. Ou carregávamos, até um tempo atrás. Agora, quem ergue a maioria do peso são as máquinas.




Máquinas não se cansam. Máquinas não reclamam. Máquinas n~çao reivindicam seus direitos, pois máquinas não têm direitos. Além disso, elas carregam 40 mil sacas de café por dia. Antigamente, para subir a bordo essa quantidade se levava uma semana.

Nós, estivadores, lutamos, criamos sindicatos, e até uma federação. A federação nacional dos estivadores. Na teoria, conquistamos muitas coisas com o pagamento de salários em feriados civis e religiosos e a garantia de equipamentos de proteção para o trabalho. Mas na prática, ainda vejo vários colegas soferndo acidentes diariamente na estiva. E ainda lutamos por outros direitos, como repouso semanal remunerado e uma aposentadoria especial. Mas que de adiantou? Milhares de nós foram demitidos para dar lugar às máquinas.

A cada ano vejo metade dos meus colegas de trabalho sendo colocados na rua sem mais nem menos. O sindicato luta para garantir uma remuneração para todos que perdem seus empregos, mas são pouquíssimos desses meus colegas que conseguem algum dinheiro. A maioria continua vagando por aí, à procura de outro emprego arriscado.

Eu espero pacientemente minha vez porque sei que ela chegará. Não importa se você possui uma história no porto, eles simplesmente te descartam. Esse é o preço que nós pagamos para o país não ficar para trás na corrida do mercado internacional. E enquanto espero, faço meu trabalho. Isto é, quando tenho trabalho. É que na estiva, um dia você está empregado e no outro não. Disputamos como animais, para sermos escolhidos. Entre dezenas, poucos são chamados e se você não tem sorte, espera horas ou até dias para tentar novamente.

Nós somos colocados em uma situação sem saída. Ou fazemos trabalho exaustivo e perigoso e organizamos greves. E se organizarmos greves, ficamos sem trabalhar e sem o nosso dinheiro. Dificilmente conseguimos algum resultado, hoje. Além disso, cada vez que nós nos revoltamos perdemos pontos em relação às máquinas... É um trabalho injusto.

Nós que carregamos durante décadas a história do desenvolvimento do país nos nossos ombros, estamos sendo despejados aos poucos. Nosso trabalho, antes tão valorizado, está sendo esquecido. Se antes sofríamos mais com as cargas, pelo menos éramos importantes. A mecanização do porto nos trouxe uma desgraça pela qual nãop esperávamos. Transformou todas as nossas conquistas em atos em vão. Hoje lutamos para preservar nossa classe de trabalhadores em extinção. O tempo corrói os cascos dos navios e as máquinas que injustamente substituem nosso trabalho. Mas a memória do antigo porto de Santos ainda brilha na história dos estivadores da cidade.

Julia Ribeiro

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Santos, ali fomos nós!

O histórico da viagem para Santos encontra-se, em parte, no blogados!9ano.

Clique, e refaça o percurso.

Fotos da viagem, pelos alunos (é preciso ter perfil no orkut para visualizar)
Artigo de opinião - Proposta de trabalho, por Cami, Laura e Marina - 04.out.09
A porta da verdade estava aberta - Sensibilização, por Cami, Laura e Marina - 12.ago.09
A verdade dividida - Poema, Carlos Drummond de Andrade - 12.ago.09
Elaborando um post - por Cami, 17.jun.09
Santos, aí vamos nós! - por Cami, 08.abr.09

Que portas vocês abriram?

Cada nome é uma maçaneta... Clique!

Bianca Schaeffer - Minha vida, meu espaço
Caio Pantarotto - Desculpas
Carol Kalili - Verde e cinza. Podemos ter os dois.
Fernanda Carvalho - Vida Madastra
Fernanda Nahas - Um olhar para o horizonte
Fernando Alassal - Possíveis futuros
Gabriela Barbara - "Nada é fácil"
Gabriela Blasbalg - "Malditas rodovias"
Guilherme Feltre - Diário do Porto - Absurdos no porto de Santos
Ian Michaelis - Influências inglesas
Isabel Ramos - Ontem, hoje
Julia La Colla - A técnica do caiçara
Julia Nogueira - Homem urbano em Santos
Julia Ribeiro - Carregando a história sobre os ombros
Julia Zimmermann - Os invisíveis
Luiza Barbosa - Mulheres da vida
Mahya Baldacci - Difícil vida fácil
Marcela Piza - Minha Santos, Minha História
Maria Elisa - Toda generalização é perigosa
Mariana Carvalho - Retrato em branco e preto
Mariana Trevisan - Paranapiacaba pela visão inglesa
Marina Fernandes - Aos pescadores da Baixada
Marina Silva - O estivador hoje em dia
Maurício Ponzoni - Economia fora dos trilhos
Michelle P. Kaloussieh - Difícil Vida Fácil
Nicolau namo Spitale - Estudo Temporal do Meio
Pedro Bobduki - Eu, um caiçara observador
Rafael Galvão - Condições de trabalho no porto de Santos
Renato Savastano - Poluição!
Rodrigo Zobaran - Minhas impressões sobre 3000 anos atrás

Verde e cinza. Podemos ter os dois

Acho que nós, africanos, precisávamos um pouco da quantidade de transporte que encontrei em Santos, Paranapiacaba e Cubatão. Estes lugares, precisavam de um pouco mais do nosso pensamento em relação à poluição, vegetação e desmatamento. Para nós, boas são nossas matas, as nossas áreas verdes e nossos animais e o ruim: a falta de transportes. E acho que nas cidades por onde passei ocorre o contrário, o ruim é o desprezo ao verde, os não há tanta vegetação e nem tantos animais, mas percebi que para transporte há uma variedade, é muito grande.

Acho que nós africanos, podemos ter uma renda baixa (não todos óbvio), mas temos orgulho de nossa terra e eu, por exemplo, sou feliz lá. Eu duvido que os brasileiros tenham orgulho de mata, de vegetação, de animais, pois se tivessem não destruiriam tanto. Acho que eles têm bastante orgulho das máquinas, indústrias, porque se não tivessem, não haveria uma cidade como Cubatão. Reservada para fabricas e essas coisas que poluem tanto. Não acho que isso é o certo, porque muitos amigos meus que possuem uma dificuldade financeira, são felizes e jamais acabariam com uma arvore sequer, para construir uma indústria ou ferrovias.



Obvio que em certas partes, é preciso, mas não concordo com o exagero da destruição de áreas verdes, quando planejei minha viagem para o Brasil, logo imaginei um paraíso. Fiquei meio decepcionada com o que achei. Claro, também encontrei algumas áreas de preservação, mas me surpreendi com a crueldade do passado. Destruir matas para construir tantas indústrias ou vias para os meios de transporte. Sei que construir uma ferrovia, por exemplo, vale a pena, pois interliga cidades e favorece o deslocamento, mas a que custo!


Acho que o essencial é saber usufruir do que temos, não concordo com o exagero do desmatamento, e fiquei aliviada quando me informaram sobre a preservação de lugares que possuem parte do que restou de mata atlântica no Brasil. Fiquei também feliz em saber que existe pelo menos um parque que cuida dessa mata. Achei muito interessante e imagei se todos os lugares por onde passei fossem como aquela parte de mata que vi, seria maravilhoso. Até me mudaria para este lugar.
Ao mesmo tempo pensei na construção de tantas indústrias, que prejudicam tanto o meio ambiente. Óbvio que são muito importantes para o desenvolvimento econômico, mas houve certo exagero, principalmente em Cubatão. Nunca tinha visto tantas fábricas juntas, se morasse lá, respirando aquele ar, viveria menos anos do que vou viver.


O exagero não pode acontecer, principalmente quando se diz respeito ao meio ambiente. Posso dizer que sou o verde, e as cidades visitadas são cinzas. Teríamos que nos misturar para ter o ideal. Não acho que precisamos escolher entre um ou outro, apenas pensar em ter da melhor forma os dois.

Carolina Kalili


O estivador de hoje em dia

Sou estivador há mais de 40 anos nesta maravilhosa cidade chamada Santos. Morei aqui toda minha vida e comecei como estivador com apenas 15 anos, apenas ajudando com as mercadorias mais leves, sem carregar muito peso, e com o tempo minhas mercadorias foram crescendo cada vez mais.


Muitas pessoas olham meu trabalho como se ele fosse muito fácil a ser feito, elas dizem: ‘ ah! É só carregar sacos para cima e para baixo’. Tá, não posso negar, é apenas carregar sacos para cima e para baixo, mas para isso exige conhecimento da maquinaria de carga, de mecânica física, e domínio das técnicas apropriadas para o transporte e acomodação de cargas, além de conhecimentos sobre transporte, seguro de matérias perigosas e esforço, e se não fosse por nós, estivadores, a mercadoria não chegaria até os navios, então não é apenas carregar caixas para cima e para baixo, você não acha?


Mesmo hoje em dia tendo mais maquinas para nos ajudar, nosso trabalho é considerado perigoso, insalubre e estressante. E por haver mais máquinas nesse meio, nosso trabalho está caindo cada vez mais, e também diminuindo o número de estivadores, ainda mais com a minha faixa etária. Quando comecei a trabalhar no porto de santos ele era um lugar com muitos estivadores de todas as idades, e havia muitas prostitutas trabalhando no local, já hoje em dia não há muitas prostitutas, não há muitas pessoas trabalhando e a maioria dos trabalhadores vão de 18 a mais ou menos, uns 60 anos, não mais que isso. O porto sempre foi um lugar, na minha opinião, sujo, mas com o tempo acabei me acostumando.

Foi um pouco difícil para eu mexer nas máquinas, mas como preciso do dinheiro para sustentar minha mulher e meus três filhos, consegui aprender rapidinho. O salário pago não é dos melhores, mas da para dar uma ajudinha nas despesas da casa, e como faço isso ha muito tempo não há porque trocar de profissão.

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Essa troca de trabalhadores por máquinas pode ser muito bom para que as empresas transportem suas mercadorias mais rapidamente, mas isso faz com que muitas pessoas, como eu, percam seus empregos, e no futuro pode ser que não haja mais estivadores trabalhando nos portos.

Historia do porto de Santos:

Estivadores trabalhando:


Toda generalização é perigosa


Existe essa lenda urbana ou fama de que os americanos são burros, ignorantes, patriotas por demais, que não sabem nada sobre o mundo e tudo o mais...Não somos assim!

Não se pode negar o patriotismo americano, as grandes festas de “4th of July” ...

Mas o maior problema é a falta de informação.


Americanos podem escolher quais matérias vão cursar na escola e ganham bolsas de estudos nas Universidades por serem bons em esportes. E muitos de nós terminamos os estudos no colégio sem nem quase saber ler, ou interpretar textos... O conteúdo de história ensinado na escola é quase ou senão 100% americano. Achamos que somos o centro do universo e não sabemos localizar a maioria dos países no mapa – nem sequer nosso próprio.

Um grande exemplo é a imagem que muitos americanos têm do Brasil, esse país tropical, abençoado por Deus. Um lugar cheio de índios, andando pelados, com macacos de estimação e sem nenhum indício de civilização. Os mais informados? Bem, pensam que a capital do Brasil é a Argentina, ou melhor um pouco, Buenos Aires.

Mas também devemos admitir que brasileiros adoram falar mal de americanos... São burros, ignorantes, se acham o centro do mundo e todo aquele “blábláblá” de sempre. Mas vocês brasileiros, o que é que têm?

Grande parte da população brasileira não tem a chance de receber uma educação apropriada, de saber das coisas, de aprender, de ter cultura... E, às vezes, os privilegiados são os que acham que não têm de saber nada, ou fazer nada, porque os pais vão estar sempre lá para salvar.

Será que a população brasileira sabe que o Porto de Santos é o maior e mais importante da América Latina? Ou que a cidade de Cubatão recebeu o título de “Cidade Mais Poluída do Mundo” e depois se mostrou um exemplo ao ganhar o título da ONU de "Cidade Símbolo da Recuperação Ambiental"? Ou quem sabe, que Paranapiacaba abriga uma das mais antigas ferrovias do Brasil? Pode apostar que muitos não sabem nem que raios é Paranapiacaba!

Um país tão bonito, com tanto potencial... Mas também tanto preconceito. Às vezes fica a impressão que o próprio povo brasileiro não acredita no país que tem. “Ah, não tem mais salvação mesmo”, “Já foi feito o estrago, não tem nada que ajude mais”... A esperança é a última que morre minha gente!

Brasileiro adora falar mal de americano, mas e agora Brasil? O que você sabe sobre si mesmo? É...

Toda generalização é perigosa.

“Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...”

E viva Cazuza!

Maria Elisa